Marcos Rogério e Fúria se destacam; Hildon preocupa e Samuel vira linha auxiliar
Marcos Rogério e Adailton Fúria concentraram os principais embates da TV Rema, enquanto Hildon Chaves voltou a ter desempenho abaixo do esperado e Samuel Costa apostou mais nos ataques do que em propostas.
PROTAGONISTAS
Quem assistiu ao debate entre os candidatos a governador promovido pela TV Rema, na capital, terminou com uma impressão que começa a ganhar contornos de tendência: se a eleição não for resolvida no primeiro turno, e tudo indica que não vai acontecer, Marcos Rogério, do PL, e Adailton Fúria, do PSD, parecem hoje os nomes mais dispostos para protagonizar uma eventual disputa final.
NARRATIVAS
O debate não foi exatamente um espetáculo de grandes ideias, mas serviu para alguma coisa: mostrou quem consegue ocupar o centro do ringue quando as câmeras estão ligadas e quem ainda procura o próprio discurso. Marcos Rogério e Adailton Fúria, cada um à sua maneira, conseguiram estabelecer uma espécie de duelo particular. Disputaram não apenas respostas, mas também a narrativa sobre quem fez mais, quem tem mais experiência e, principalmente, quem estaria mais preparado para governar Rondônia.
PERDIDO
A surpresa negativa ficou por conta de Hildon Chaves. Quem esperava encontrar o Hildon das eleições municipais, aquele candidato que costumava emparedar adversários com perguntas incômodas, argumentos robustos e doses generosas de sarcasmo, encontrou uma versão muito diferente. Seu desempenho tem sido marcado por dificuldade em acompanhar perguntas, organizar respostas e concluir raciocínios de maneira objetiva. Não é apenas uma questão de estilo. É uma mudança perceptível na comunicação de um político que, em outras disputas, demonstrava domínio do palco.
PERCEPÇÃO
E o problema é que não parece ter sido um episódio isolado. A cada novo encontro público, Hildon deixa a impressão de estar distante daquela imagem de candidato combativo que construiu anteriormente. Em política, percepção é quase tudo. O eleitor não tem obrigação de decifrar um discurso que não consegue compreender. Quando o candidato demora a chegar ao ponto, divaga ou não consegue estabelecer uma linha lógica de argumentação, o adversário não precisa sequer atacá-lo: a própria performance faz o serviço.
DIAGNÓSTICO
Convém, entretanto, separar a análise política de qualquer especulação sobre saúde. Não cabe a uma coluna transformar dificuldades de comunicação em diagnóstico. O que pode ser constatado é o desempenho público. E este, até aqui, está muito abaixo do Hildon que o eleitor conhecia. O ex-prefeito não está bem. No entanto, há algo estranho no comportamento cognitivo do candidato que precisa ser avaliado. Hildon é um bom gestor que precisa aplicar as técnicas na própria campanha, antes que seja tarde.
O MESMO
Expedito Neto, candidato do PT, apresentou o desempenho esperado de seu campo político: discurso alinhado ao governo Lula, defesa das realizações federais e uma atuação mais regular, sem produzir, contudo, uma avalanche de propostas capazes de mudar o eixo do debate. É uma candidatura que procura nacionalizar a eleição estadual, apostando mais na identidade política do que em uma agenda própria para Rondônia. Repete Lula a exaustão o que denota uma estratégia em colar na capilaridade do presidente para amealhar votos. O problema é que nem todos que votam em Lula repetem o voto nos candidatos do petismo. Uma estratégia manjada e nem sempre cola.
SABIDOS
Pedro Abib, do MDB, também parece ter percebido que debate não é concurso de quem fala mais alto. Diminuiu consideravelmente o tom vocal, introduziu pausas e conseguiu organizar melhor o raciocínio. O resultado foi um candidato mais compreensível – embora sem empatia, e, portanto, menos chato. Ainda assim, ficou a sensação de que Abib poderia entregar mais. Sua capacidade intelectual e sua experiência permitiriam um discurso muito mais denso, com propostas capazes de fugir do lugar-comum que costuma contaminar debates eleitorais. Parece que entre no debate para dar espetáculo de sapiência e não convencer o eleitor. Repete um erro que Marcos Rogério insiste em comentar: fala para impressionar e não fala com objetividade para o eleitor.
EMPATIA
No duelo particular entre Marcos Rogério e Fúria está, por enquanto, a parte mais interessante da eleição. São estilos diferentes de comunicação, mas ambos demonstram saber ocupar o espaço político. Marcos Rogério tem a vantagem de uma identidade ideológica consolidada e de uma comunicação rebuscada. Fúria aposta na experiência administrativa e na capacidade de apresentar realizações como credencial para o governo. Além de exalar uma empatia onde o principal oponente é falho.
LINHA AUXILIAR
Samuel Costa, do PSB, é um capítulo à parte nessa eleição. Não se trata de um candidato despreparado, mas seu desempenho nos debates vem sendo um desastre de comunicação política. Parece linha auxiliar. A estratégia escolhida foi a agressividade permanente, como se eleição se ganhasse no grito e na pancada verbal, sem que até agora tenha aparecido, com a mesma intensidade, uma proposta sequer capaz de indicar o que pretende fazer com Rondônia.
ALVO
Seu tempo de inquirição tem servido ora para retomar ataques incessantes contra o petista Expedito Neto, em razão de fatos já conhecidos do eleitorado, ora para disparar contra os demais adversários numa linguagem simplória, típica das campanhas de nível menor. Os ataques são raivosos, muitas vezes desconexos e, não raro, provocativos, especialmente quando o alvo é Fúria.
CURIOSIDADE
O contraste é curioso porque Samuel, no trato pessoal, é exatamente o oposto: afável, educadíssimo e longe da persona beligerante que apresenta diante das câmeras. Tem usado seu tempo para fustigar apenas o candidato do PSD e o petista, mas poupado os demais. O que tem despertado desconfiança nos meios políticos. E na política não há coincidências. Caso a Direção Nacional do PSB consiga barrar a candidatura, conforme pretende, aos próximos debates ninguém sentirá falta. Exceto Marcos Rogerio.
AUDIÊNCIA
O debate da TV Rema, embora tecnicamente melhor que o anterior, não parece ter produzido uma explosão de audiência – foi longo e sem pegada. Talvez porque os debates, nesta fase da campanha, tenham adquirido outra função. Já não são necessariamente programas destinados a formar multidões de espectadores diante da televisão. São usinas de cortes para as redes sociais. Uma frase atravessada, uma resposta mal formulada, uma tirada de efeito ou um momento de confronto podem valer mais nas mídias digitais do que duas horas de transmissão. A audiência foi pequena.
DECISÃO
E é justamente aí que a eleição começa a ficar interessante. Se nenhum dos candidatos conseguir construir força suficiente para liquidar a disputa no primeiro turno, os debates da SIC TV e da Globo poderão assumir outro peso. Ali estarão os candidatos já sabendo quem cresceu, quem caiu e quem precisa desesperadamente mudar de estratégia. E há um contingente de eleitor enorme que deixa para decidir o voto nos últimos dias.
CONVENCIMENTO
Até lá, a fotografia ainda pode mudar. Mas, depois da TV Rema, a paisagem começa a ganhar contornos mais definidos: Marcos Rogério e Adailton Fúria parecem ter entendido que a eleição também se ganha no confronto direto. Hildon Chaves precisa reencontrar o candidato que já foi. Expedito Neto precisa transformar discurso nacional em proposta estadual. Pedro Abib precisa colocar mais conteúdo na mesa. Já Samuel, precisa antes do voto popular, convencer o próprio partido de que tem uma candidatura viável.
IMAGEM
Porque debate eleitoral não é apenas falar. É pensar rápido, responder com clareza, atacar quando necessário e, sobretudo, fazer o eleitor imaginar aquele sujeito sentado na cadeira de governador. E, até agora, apenas dois parecem estar disputando seriamente essa cadeira no palco: Marcos Rogério e Adailton Fúria. Os demais ainda precisam provar que não estão apenas participando da eleição, mas disputando-a de fato.
RESPOSTAS
Os dois direitos de resposta concedidos contra Adailton Fúria, vistos sem paixão, parecem mais resultado da pressão das bancas jurídicas ou de conveniência política do que de fake news. No caso do museu, a destinação dos recursos por Marcos Rogério é verdadeira; o erro foi apenas no valor informado. E, estando os dois no púlpito, bastaria a correção na tréplica. O mesmo valeu para o embate com Samuel: direito de resposta faz sentido quando o atacado não teve oportunidade de se defender. Caso contrário, debate vira processo e adversário vira réu. Direito de Resposta deveria ser concedido quando o ataque é de cunho moral, afetando a dignidade do candidato. Não em razão de desmentidos qualquer que pode ser feito durante os blocos do próprio debate.
Por: Robson Oliveira
Jornalista, Advogado e colaborador do Site - "Gentedeopinião" - contato: [email protected]
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